Sentada no portão, a menina de cabelos revoltos vê a vida passar.
Eu já fui aquela menina de cabelos revoltos, já sentei e observei, assim como ela. Os olhos, que em certas noites beiram a loucura , outrora eram doces como os delas. Já sonhei como ela.
Hoje não. Hoje meus cabelos estão domados, meu olhar é alerta , vivo no lugar de assitir a vida.
Mas sinto falta da leveza que era ter cabelos revoltos. O coração não exibia feridas, era 0km. Sinto que nunca mais vou sorrir tão verdadeiramente quanto quando eu tinha cabelos revoltos.
O futuro já chegou e ele não é nada do que eu imaginava, quando me dei conta disso abri mão de planos. Expectativas são o caminho mais rápido para as decepções. Mas ela não, sentada no portão, ela planeja a vida toda que está por vir. Sonha com carreiras, amigos , amores. Ela sabe que pode ganhar o mundo. Eu também podia ganhar o mundo. Onde foi que isso se perdeu?
Ela não teme o depois. Por um momento sinto que devo alerta-la." -Cuidado, não vai ser como eles dizem". E ela vai rir de mim. Eu também riria.Como pode , com aqueles cabelos beijados pelo Sol, como pode ser possível que não ganhe o mundo?
Ela continua sentada, brinca com o dia, faz careta pro tempo. O tempo parece gostar dela. E me pergunto se um dia ele já gostou de mim. Sim! ele gostou, sim. Houve um tempo em que éramos grandes amigos. Ele passava devagar, desfruta da minha companhia.
Pensando bem, acho que até pensava que ele era lento demais.Queria chegar lá na frente, queria chegar logo. Como se eu descesse uma ladeira de bicicleta e, no lugar de desfrutar , pedalasse pra ir cada vez mais rápido. Essa menina não. Ela levanta os pés no ar. Ela abre os braços. Sente o vento na cara, fecha os olhos e imagina voar.
A diferença entre nós duas tá aí, em como andamos de bicicleta. Começo a pensar que ao invés de alerta-la do que vem pela frente, devia para e ver a vida com ela. Deixar o vento bagunçar meu cabelo. Parar de me preocupar com o depois. Posso começar fazendo planos a curto prazo. E se ele falharam, faço igual a ela: me machuco, choro, depois volto a brincar.
Lá está ela, sentada no portão , nem imagina a batalha interior que enfrento nesso momento por causa dela. Se soubesse, aposto que ela iria rir. É isso que as meninas de cabelos revoltos fazem, elas riem de nós que domamos nossos cabelos.
Nesse momento tiro o salto, sento ao lado dela. Em silêncio ela me sorri. Passados alguns momentos , não resisto e pergunto : "o que vc tá pensando?" E ela responde:"O vento também bagunçou seu cabelo, igual ao meu".
Dei a risada mais verdadeira dos últimos tempos, e agradeci ao vento.Naquele momento eu também era uma menina de cabelos revoltos.
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